News Frama (NF) | Estas jornadas juntam no mesmo evento especialistas e profissionais envolvidos na área da saúde mental: Psiquiatria, Pedopsiquiatria e Psicologia Clínica. O que está na base da decisão de realizar um evento em conjunto?
Margarida Crujo (MC) | Na prática clínica, há uma definição etária no que diz respeito à atuação dos pedopsiquiatras, dos psiquiatras e, de uma forma geral, também entre os psicólogos clínicos, que cada vez se especializam mais, ora no apoio a crianças e adolescentes, ora a adultos. No entanto, a saúde e a doença mental compadecem-se menos com esta delimitação instalada, são transversais à vida ao longo do seu curso. Por assim observarmos saúde e doença mental, e por acreditarmos nas vantagens imensas de um trabalho técnico integrado, juntámo-nos nas “Jornadas de Saúde Mental” do Hospital CUF Descobertas, com gosto, neste sentido.
NF | Qual foi o peso da escolha do tema “Transições”, das Jornadas, para esta junção das três classes profissionais?
MC | Primeiramente, cunhámos o termo Transição numa perspetiva etária ou temporal com a criação, no Hospital CUF Descobertas, de uma Teleconsulta de Transição, que precisamente dá resposta às pessoas na transição da consulta de psiquiatria da infância e da adolescência para a consulta de psiquiatria de adultos.
Posteriormente, e na perspetiva de organizarmos estas Jornadas, ampliámos a aplicabilidade do termo Transição. É naturalmente versátil e as fases das nossas vidas vão sendo feitas, de facto, de transições.
NF | Começando pela parentalidade, o programa foca ser pai de crianças de tenra idade com doenças graves. Situando estas jornadas no contexto hospitalar, esta situação constitui uma experiência não incomum para certos profissionais, como se procede ao acompanhamento dos progenitores ao longo do processo de doença dos filhos?
MC | Existem dois ou três níveis de apoio aos pais de filhos com doença crónica: um, efetuado durante o internamento efetivo dos filhos, no chamado contexto de Pedopsiquiatria de Ligação, para apoio dos pais em fase tão vulnerável e promoção da adaptação possível à realidade vivida; um outro, em ambulatório, correspondente a um suporte e condução no papel parental, à função das pessoas como pais, que poderá ocorrer em consultas de Pedopsiquiatria. Outro, ainda, prender-se-á com um apoio mais individualizado, à mãe ou ao pai enquanto pessoas singulares, em contexto de consultas de Psiquiatria de Adultos. Transversalmente a estes patamares de apoio, a Psicologia Clínica tem um papel fundamental e imprescindível: de articulação com as valências médicas, e de intervenção prática, nomeadamente numa vertente psicoterapêutica. A saúde mental individual é essencial para que uma pessoa possa desempenhar os seus diversos papeis sociais, incluindo o parental, num potencial otimizado. Já dizia John Bowlby, psiquiatra e psicanalista: “se uma sociedade valoriza os seus filhos, deve cuidar dos seus pais”.
NF | Quando ao mundo digital, genericamente, de que implicações clínicas ou mudanças comportamentais estamos a falar de acordo com a idade biológica das crianças? E Como podem os profissionais de saúde auxiliar os pais a formar os seus filhos para uma relação salutar com as plataformas digitais?
MC | O mundo digital é uma faca de dois gumes. Tem vantagens amplamente conhecidas e que não devemos desvalorizar, como a instrução, a socialização e a diversão. Imaginemos a pandemia sem a possibilidade de acesso a um mundo digital?!
No entanto, a exposição a conteúdos desadequados para cada faixa etária poderá ser fonte de angústias e de risco psicopatológico. É um mundo igualmente repleto de riscos, não só no sentido das ameaças, como também das dependências, e tem que ser explicado, interpretado, limitado, partilhado. Os pais ou os cuidadores terão esta função de filtro entre ecrã e filhos, para que a dose recebida pelas crianças possa ser inofensiva. Devemos lembrar-nos que o número de aparelhos eletrónicos em casa, assim como o tempo que os pais passam online, correlacionar-se-ão com o tempo que as crianças também o fazem.
NF | Por fim, as ruturas. Nesse painel, violência e perda são as palavras fortes destas situações extremadas. Como detetar no contexto de consultas de rotina uma suspeita de condições debilitantes e patológicas da saúde mental, perante situações da vida das pessoas, muitas vezes ocultadas pelos próprios?
MC | Neste painel quisemos, de facto, introduzir temas fraturantes, que traduzissem a transição para situações de vida mais abruptas e delicadas, muitas vezes inesperadas, como as mortes condicionadoras de lutos, ou a violência na parentalidade e suas consequências. Mas, em simultâneo, gostávamos de transmitir a ideia de os momentos de rutura poderem ser o início de outros tempos de transformação, de renovação. Por isso, quisemos deliberadamente terminar com uma apresentação sobre arte – a arte como força potenciadora de transformações, a arte como meio extraordinário de transições.
NF | Que mensagem de incentivo gostaria de dirigir aos profissionais e estudantes que estejam a considerar inscrever-se?
MC | O programa tem voz própria, e a nós parece-nos uma voz afinada em várias amplitudes e com timbres muito diversificados. No fundo, uma voz forte e muito original. Somos suspeitos, mas cremos que será muito boa de ser ouvida, e naturalmente são todos muito bem-vindos!
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